terça-feira, 17 de outubro de 2017

A autarquia e o respeito pelos cidadãos

Esta foto foi obtida na tarde de terça-feira, 17/10/2017 e mostra um detalhe das obras actualmente em curso na Casa Vieira Guimarães, ao fundo da Corredoura:


Trata-se de obras indispensáveis, que consistem basicamente na limpeza e posterior pintura das fachadas. O problema reside na maneira como estão a ser feitas. Mais precisamente no que se refere aos andaimes. 
Se fosse um prédio particular, tinha de haver uma licença de ocupação da via pública e, naturalmente, um obrigatório corredor de circulação para os peões. Porque é óbvio que durante a lavagem e a pintura do prédio, não se pode transitar pela galeria sob os andaimes, que de resto foi vedada, o que está correcto em termos de prevenção.
Tratando-se de uma obra da autarquia, não há corredor de passagem para peões. Dava muito trabalho. Os cidadãos que se desenrasquem, usando a faixa de rodagem dos veículos. Ou atravessando para o lado oposto, obrigatoriamente fora da respectiva passadeira. 
É apenas um detalhe, porém muito elucidativo no que concerne ao respeito pelos direitos dos cidadãos. Se houver um acidente, será apenas mais um azar. Como no caso dos incêndios.
Não se trata obviamente de criticar os eleitos, que não podem ver tudo nem estar em toda a parte. Mas há funcionários para fiscalizar estas coisas, que pelos vistos andam distraídos. Porque será? 

Nunca se sabe...

Portugal é um país de brandos costumes e Tomar uma terra de costumes demasiado brandos em certas áreas. Apesar disso, é de elementar prudência ir sempre pensando que Nunca se sabe.
A peça que segue está muito afastada do âmbito deste blogue. Mesmo assim, pareceu importante publicá-la, entre outras coisas para homenagear todos aqueles que honestamente lutam de forma pacífica por uma informação livre ao serviço da comunidade. Trata-se de uma notícia publicada no LE MONDE online de 16/10/2017, actualizada em 17/10/2017.

"Em Malta, uma blogueira que denunciava casos de corrupção foi assassinada"

"Cronista em vários meios de comunicação, muito conhecida graças ao seu blogue muito popular, Daphne Caruana Galizia morreu ontem na explosão do seu carro de aluguer"

"Uma vez mais, Daphne Caruana Galizia acabava de publicar no seu blogue um artigo sobre um caso de corrupção implicando um político maltês. Na sua habitual escrita rápida e nervosa, expressou mais uma vez o seu profundo pessimismo perante essa epidemia local: "Doravante há vigaristas por todo o lado. A situação é desesperada."
Publicada às 14H35 de 16/10/2017, a frase adquire agora contornos premonitórios. A blogueira sua autora foi assassinada meia hora mais tarde, aquando da violenta explosão do carro de aluguer em que se deslocava. A viatura foi depois encontrada pelos serviços de socorro num terreno agrícola ao lado da estrada, próximo do seu domicílio. A natureza criminosa deste ataque contra uma figura da informação local que tinha muitos inimigos, não oferece quaisquer dúvidas. O primeiro ministro maltês, Joseph Muscat, que era um dos alvos principais de Caruana Galizia, classificou este acto de "bárbaro", acrescentando que "Hoje é um dia negro para a nossa democracia e para a nossa liberdade de expressão." Trata-se do primeiro assassinato político em Malta, desde os anos 80.
A jornalista agora desaparecida, historicamente próxima da oposição, tornara-se especialista na publicação de escândalos comprometedores implicando os políticos locais. O seu blogue em inglês era um dos mais lidos da ilha, frequentemente com mais leitores que os jornais tradicionais, nos quais ela colaborava ocasionalmente, mesmo se a maior parte dos seus rendimentos vinham da sua actividade como editora.

O estado em que ficou o carro conduzido pela jornalista

Publicou designadamente numerosos artigos sobre a implicação de gente próxima do primeiro ministro Muscat nos Panamá papers. O filho de Caruana Galizia, que estava em casa aquando da explosão, trabalha para o Consórcio internacional de jornalistas de investigação (ICIJ), que integra o LE MONDE [e em Portugal o EXPRESSO].
Com 53 anos, esta jornalista corajosa mas controversa tinha recentemente arranjado inimigos no seio do partido da oposição, que no entanto tinha apoiado aquando das eleições legislativas, em Maio. Publicou nomeadamente vários artigos em Agosto sobre o novo lider da oposição, Adrian Della, acusado de ter uma conta na ilha de Jersey, alimentada, segundo ela, por dinheiro proveniente da prostituição londrina. Esses artigos provocaram vários processos por difamação, de que ela fazia colecção, conjuntamente com as ameaças de morte, frequentes numa ilha tão pequena e dividida como Malta.
"Era muito independente na sua maneira de pensar", declarou Arnold Cassola, ex-líder do Partido Verde maltês. "Foi ela que revelou os maiores escândalos de Malta, mesmo se também arranjou muitos inimigos ao escrever por vezes coisas estúpidas."
É verdade que entre as manchetes, Caruana Galizia gostava também de criticar o vestuário dos membros da família dos responsáveis políticos, usando por vezes um vocabulário algo impróprio. No seu penúltimo texto de blogue, criticava a postura corporal de Adrien Della e "o seu pescoço que ultrapassa em 45 graus as omoplatas, como uma tartaruga".
Questionada pelo Le Monde em Maio sobre este tipo de textos de blogue, que muitos malteses consideravam que prejudicavam as suas restantes publicações, defendeu o respectivo estilo: "Penso que é importante, porque os políticos usam a sua imagem e até se servem dos seus filhos menores para fazer campanha."

Chocados, milhares de malteses desceram às ruas na segunda-feira à noite, para homenagear a jornalista e denunciar os bastidores pouco apresentáveis deste país membro da União Europeia desde 2004. O líder da oposição, Adrien Della, disse mesmo que este assassinato é uma "consequência directa do desmoronamento total do Estado de direito no país." "Isto é mais parecido com a Rússia do que com a Europa", confirma o eurodeputado Verde alemão Sven Giegold, que tinha conversado com Caruana Galizia no inverno passado, no âmbito da comissão de inquérito sobre os Panamá papers. "A sua paixão era revelar verdades secretas; mas numa sociedade estreita como Malta é algo muito difícil."
Apesar dos numerosos escândalos revelados por Caruana Galizia, o primeiro-ministro Joseph Muscat foi reeleito com larga maioria nas eleições legislativas de 3 de Junho passado."

Jean-Baptiste Chastand, Le Monde online, 17/10/2017
Tradução e adaptação de António Rebelo, UPARISVIII

domingo, 15 de outubro de 2017

Sem condições não vamos lá

Alguns instalados, também conhecidos como militantes do partido do Estado, no caso responsáveis pelo estado a que Tomar já chegou, não gostaram mesmo nada dos textos sobre Toledo. Em relação ao mais recente as reacções foram categóricas: Fica muito caro; é uma coisa boa para Toledo, que tem muito mais habitantes e muito mais turistas; ia estragar a encosta do castelo... Pobre gente!
Alguém do grupo com o qual visitei Toledo disse que um elemento da autarquia lhe pedira para tirar fotografias das escadas mecânicas, de forma a ver se era possível mandar instalar algo parecido em Tomar. De forma que, ponham-se a pau partidários do imobilismo. Até os autarcas agora reeleitos já andam a pensar no assunto, o que se saúda por ser coisa rara.
É certo que dotar a cidade com equipamentos à altura das necessidades, dos quais faça parte um acesso ao Convento por escadas rolantes, é algo caro e tecnicamente muito complexo, que exige planeamento atempado e competente. Também é verdade que tem de haver muito cuidado na discussão, no estudo e na elaboração do projecto global e dos sectoriais, de forma a evitar erros dificilmente reparáveis, entre os quais a possibilidade de alterar o aspecto actual da encosta do castelo, ou de gastar verbas em vão.. Mas tudo o resto não passa de balelas de circunstância. De falsos argumentos para esconder a simples recusa do progresso... e a evidente falta de gabarito de certa gente.
Toledo tem realmente mais do dobro dos habitantes de Tomar e recebe muito mais turistas, conforme já foi referido aqui. Mas que tem isso a ver com infra-estruturas turísticas, indispensáveis nos tempos que correm? Por um lado, se o empreendimento for bem planeado e a sua implementação bem conduzida, a câmara nada terá que investir e ainda irá receber. Por outro lado, há pelo menos um município cujo principal monumento recebe muito menos turistas que Tomar e que apesar disso já dispõe de ligação por escada rolante entre o núcleo urbano e o castelo:



 

Não, não fica em Espanha, nem no estrangeiro. Basta reparar na bandeira hasteada. É em Montemor o velho, a pouco mais de cem quilómetros de Tomar, e  as escadas mecânicas foram inauguradas em Junho de 2013. Três meses antes de eleições autárquicas.
Montemor o velho tem apenas 22 mil leitores, contra 34 mil em Tomar. O PS ganhou aí as recentes autárquicas, obtendo 51, 21% dos votos expressos, contra 40,22% do PS em Tomar, mas em ambos os casos os socialistas têm maioria absoluta, com 4 eleitos, contra três do PSD.
Em Montemor o velho a abstenção bruta (abstenção + votos brancos + votos nulos) foi de 41,1%, contra 49,6% em Tomar. Uma vez que em 2013 o PS conquistou a câmara de Montemor o velho à coligação PSD/CDS, mas com apenas 40, 45% e 3 eleitos em 7, parece óbvio que as escadas rolantes valeram, quatro anos após a inauguração, uma folgada maioria absoluta aos socialistas do vale do Mondego.
O administrador deste blogue sabe que há na autarquia tomarense quem não goste dele. É natural. Têm razões para tanto. Trata-se afinal de uma das raras vozes livres na informação local. Por isso, aqui deixa como testemunho de compreensão e de simpatia este guardanapo para se limparem, o qual é ao mesmo tempo um acto de justiça para com o autor do projecto de instalação das escadas rolantes em Montemor o velho, o arquitecto Miguel Figueira, que Tomar a dianteira não conhece pessoalmente. E com quem nunca teve qualquer contacto escrito ou presencial.
Quando autarcas e funcionários superiores municipais não se limitam ao show off e a receber ordenados e mordomias ao fim de cada mês, a obra aparece. E os municípios vão progredindo...

ADENDA

Para quem queira e tenha recursos para pensar um bocadinho nestas coisas da política local, dos equipamentos indispensáveis, da atitude da população, dos eleitos e dos funcionários superiores, aqui vai um pequeno quadro que mostra a diferença entre um concelho onde se trabalha em prol de todos e outro onde tem sido praticamente só show off e conversa fiada:

                                Fonte: https://www.autarquicas2017.mai.gov.pt/



Adeus TAP portuguesa? Ou simplesmente adeus TAP?

Não é de todo a área de intervenção deste blogue, mas o assunto pareceu assaz importante para merecer uma excepção, até porque pelo menos dois leitores assíduos trabalham na TAP. 
Abordando numa página inteira as dificuldades crescentes das companhias aéreas europeias, o Le Monde, refere nomeadamente, na sua edição papel datada de sábado, 14/10, o desaparecimento da belga SABENA e da suiça SWISSAIR, bem como a compra pela BRITISH AIRWAYS da espanhola IBÉRIA e da maior parte da falida AIR BERLIN pela também alemã LUFTHANSA.


A mesma peça refere igualmente a recente falência da britânica MONARCH, que deixou em terra mais de cem mil passageiros com bilhetes já pagos, bem como  a  ALITALIA,  que terá de declarar falência, caso não encontre nova parceria de negócios até amanhã, 16/10,  terminando de modo pouco ou nada tranquilizador para os admiradores e pessoal da TAP - Air Portugal:
"Pior ainda, estas companhias [que operam sobretudo no longo curso] são agora também atacadas por baixo,  pelas companhias de baixo custo como a NORWEGIAN", assinala Stéphane Albernhe, presidente da sociedade de conselho Archery Strategy Consulting - ACS. Um ataque em tenaz que poderá vir a provocar mais baixas. Para sobreviverem, essas companhias aéreas têm de fazer reformas, "mas têm de as fazer com grande celeridade, porque caso contrário morrem." 
Segundo os especialistas, as próximas participações de falecimento poderão ser as da escandinava SAS ou da portuguesa TAP, ambas com dificuldades crónicas."

Guy Dutheil, Le Monde, Economie et Entreprise, 14/10/2017, página 5
Tradução, adaptação e destaques de António Rebelo, UPARIS VIII

Objectivos opostos - 5

Comparando Tomar e Toledo - 3

Antes de iniciar este texto, será melhor ler aqui, aqui e aqui. Caso contrário pode muito bem ficar um bocado baralhada ou baralhado.

Apesar de tantas opções opostas, há também um sector em que os bons autarcas de Tomar e os maus autarcas de Toledo convergiram -o dos parques de estacionamento. Tal como António Paiva mandou fazer em Tomar, também os eleitos das terras de D. Quixote e Sancho Pança, dotaram em tempo oportuno a sua cidade de parques de estacionamento. Aí termina porém a convergência.
Enquanto em Tomar o excelente Paiva encravou um parque de estacionamento em pleno núcleo histórico, e outros demasiado acanhados junto ao Convento de Cristo, principal monumento da cidade, da região e do país, todos sem instalações sanitárias de acesso livre, os péssimos autarcas toledanos viram bastante maior e muito mais longe. Mandaram instalar parques de estacionamentos cobertos e descobertos, devidamente equipados e com milhares de lugares, fora das muralhas, como mostram parcialmente estas fotos:




Segundo informações recolhidas por Tomar a dianteira 3, há em Toledo, cá em baixo, fora das muralhas, capacidade para estacionamento de mais de dois mil ligeiros e 250 autocarros. Só o parque coberto para autocarros, com vários pisos enterrados, tem lugar para 120 veículos.
E para subir?, perguntarão aqueles tomarenses que, como diz o jornalista tomarense e meu amigo, António Freitas, "coitados nunca saíram do buraco". Para subir, os autarcas toledanos permitem que os seus eleitores e os turistas escolham. Ou sobem a pé, que é o mais saudável e económico, ou vão por aqui:









Pois é! Após quatro lances de escadas rolantes, residentes e turistas chegam aqui:



Onde dispõem de amplas e modernas instalações sanitárias no subsolo (entrada pelo lado direito da foto), de um posto de informação, de uma loja de recordações, de distribuidores automáticos de bebidas e deste magnífico panorama de Toledo, lá em baixo, fora da muralhas:


Daqui, os residentes vão à sua vida e os turistas vão calcorrear as ruas do centro histórico, aproveitando para comprar aqui e ali, que é afinal o que interessa, sobretudo aos comerciantes toledanos. Compras sentado no pópó, ou com o pópó à porta, só na Net, nos hipermercados, nos Macdonalds...e no Convento de Cristo, quando há lugares, o que é raro durante a alta estação. 
Perceberam agora, senhores autarcas tomarenses? O turismo enquanto tal não desenvolve a economia tomarense, nem cria empregos. As despesas dos turistas é que podem ajudar substancialmente as depauperadas finanças e o investimento locais. Mas para isso é primordial que os turistas gastem, que passem pelas lojas. O que não acontece com eventos generosamente financiados pela autarquia, mas sem entradas pagas. Ou com os autocarros e pópós acumulados junto ao castelo e ao convento, cujos passageiros chegam, visitam e põem-se na alheta. Por essa via, nunca mais vamos conseguir sair da cepa torta. É apenas mais uma versão moderna da velha agricultura portuguesa, que era "a arte de empobrecer alegremente".
Ou será que vai tudo bem, sou eu que estou a  ver mal, e a população tomarense continua a diminuir apenas por mero acaso?

sábado, 14 de outubro de 2017

Tudo muito divertido mas...

Ao que li, a inauguração da Feira de Santa Iria correu muito bem e foi muito divertida e tudo. O costume. Na circunstância, Bruno Graça declarou que provavelmente será este o último ano em que a feira se realiza na Várzea grande, uma vez que as obras ditas de requalificação daquele espaço público vão começar em breve. O ainda vereador da CDU foi logo secundado pelo actual vice-presidente, Hugo Cristóvão, que confirmou a inevitável mudança de local da multicentenária feira.
Até aí tudo muito bem. Seguiu-se mesmo um convite inesperado da senhora presidente Dª Anabela Freitas para uma volta de carrossel, prontamente aceite por todos, com destaque para o ainda presidente da Assembleia Municipal e para o futuro líder da oposição José Delgado. No meu entender de pobre parolo, mais um acto que evidencia o comportamento muito tomarense dos reeleitos e dos novos eleitos.
Como os leitores de TAD3 sabem, os autarcas dividem-se em dois grandes grupos. O grupo A mostra as obras que tem feito. O grupo B, como não tem obras para mostrar, vai-se mostrando. Um pouco como aqueles turistas que, em vez de fotografarem paisagens e monumentos, vão-se entretendo a fazer selfies, decerto considerando que eles  é que são o motivo da viagem e o enquadramento geográfico apenas um cenário. Novos tempos, novos hábitos...

Foto mediotejo.net

O caso nem seria grave, mesmo tendo em linha de conta a tomada de posse e a primeira sessão da Assembleia Municipal de Tomar a realizarem-se num cine-teatro, transformando assim actos administrativos que deviam ser solenes num mero espectáculo, não fora a dimensão dos problemas em causa, de cuja abordagem pública os membros do próximo executivo fogem como o diabo foge da cruz. Percebe-se porquê.
No caso do novo local para a feira, nada dizem porque não têm a menor ideia sobre tal matéria. Que como habitualmente nesta desgraçada terra é bem capaz de ser decidida em cima da hora e em cima do joelho. Bem gostaria de estar enganado.
Quanto às obras ditas de requalificação da Várzea grande, será dinheiro europeu deitado ao vento, pois dois motivos principais. O primeiro deriva da evidente má qualidade e inadequação do projecto face às necessidades da cidade. O outro implica que, mais cedo que tarde, quando finalmente a autarquia resolver mandar elaborar um plano local de turismo digno desse nome, tal documento terá de recomendar  a construção de um parque de estacionamento de superfície e subterrâneo, em toda a área da Várzea grande (excepto palácio da justiça) e do ex-Convento de S. Francisco, incluindo dependências do ex-RI 15. A inevitável construção desse equipamento fundamental e inadiável, vai implicar forçosamente a destruição da maior parte da "requalificação" entretanto efectuada, por não haver outro local tão adequado, por razões que seria demasiado longo explicar aqui. Mas como é dinheiro de Bruxelas e os tomarenses se calam a tudo...

Objectivos opostos - 4

Nota prévia
A estatística da Google mostra que os textos sobre turismo, Tomar e Toledo são muito menos lidos que os outros. Dado que o autor e o estilo são os mesmos, a conclusão impõe-se: Algum leitorado de Tomar a dianteira prefere o véu diáfano da fantasia à nudez forte da verdade. Se calhar é também por isso que os resultados eleitorais foram o que foram e que Tomar está como está. 

Comparando Toledo e Tomar  - 2

Prosseguindo no âmbito da crítica construtiva favorável aos autarcas tomarenses, cabe recomendar a leitura atenta das peças anteriores sobre este mesmo tema. Aí se informa que Toledo tem em proporção menos de metade dos funcionários municipais de Tomar -626 para 83 mil habitantes em Toledo, (incluindo 119 polícias), contra 500 para 40 mil habitantes em Tomar. Ai se escreve também que o Conselho municipal de Toledo, equivalente da nossa Assembleia Municipal, conta apenas 25 eleitos, contra 32 em Tomar. 
Gastando assim muito menos que Tomar em despesas fixas e permanentes, Toledo beneficia além disso de receitas muito superiores. Segundo o INE espanhol, a capital de Castilla La Mancha tem 340 hotéis e 115 alojamentos locais, que em conjunto registaram em 2016 906.390 pernoitas, sendo 646.135 de espanhóis e 256.315 de estrangeiros. Para se ter uma comparação mais sólida, 906 mil pernoitas representam 3 noites passadas em Tomar por cada um dos 300 mil visitantes do Convento de Cristo. Se houvesse capacidade hoteleira instalada para isso, bem entendido. Só que em Tomar não há 34 hotéis, quanto mais agora 340. E pelo caminho que as coisas levam, nunca haverá.
Assim poupados e com verbas abundantes, os autarcas toledanos vão asneirando, em vez de se guiarem pelas conhecidas boas práticas dos seus homólogos tomarenses. Além de terem suprimido as algas no Tejo, limitaram singularmente o trânsito automóvel dentro das muralhas, o tal centro histórico, onde residem cerca de 10 mil pessoas. De que maneira? Mandando instalar pilaretes inteligentes, como o desta fotografia:

Quando se aproxima um veículo com o identificador adequado, o pilarete do meio baixa e o carro pode passar. O dito identificador é fornecido pela autarquia unicamente aos residentes com garagem, bombeiros, ambulâncias, polícia, médicos e enfermeiros. Os outros não entram.
Em Tomar, como é sabido, vem todas as manhãs e todas as tardes um bombeiro num veículo da corporação, levantar e baixar os pilaretes ao fundo da Corredoura. O quartel dos bombeiros fica a menos de 250 metros dos pilaretes, mas andar a pé cansa. Sobretudo aqueles bombeiros que, como se sabe, em geral apagam os fogos montados nos seus veículos...

Referi antes que os autarcas de Toledo vão fazendo asneiras, porque parto do princípio que os eleitos tomarenses têm feito, estão a fazer e farão o melhor que podem e sabem em prol de Tomar e dos tomarenses.. E como não tem sido nem é nada disto, mas o exacto oposto, os toledanos só podem estar no mau caminho. Tou certo ou tou errado?

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Objectivos opostos - 3

COMPARANDO TOLEDO E TOMAR

Abordei aqui em tom irónico o caso dos autarcas de Toledo, que mantêm o Tejo limpo de algas, ao invés do que acontece em Tomar, decerto para proteger os peixes nabantinos do calor do verão, segundo se pode deduzir das declarações de um biólogo anteriormente citado neste blogue.
Pelo retorno obtido sobre essa peça, concluí ser indispensável avançar informação mais detalhada sobre Toledo, de forma a que os leitores saibam realmente do que se está a falar. Então, aqui vai. 
Toledo tem actualmente 83 mil habitantes, dos quais cerca de 10 mil residem no interior das muralhas. Nas eleições municipais de 2015, a abstenção foi de 28,06%, os brancos 1,68% e os nulos 1,58%. Recorde-se que em Tomar, menos de 35 mil eleitores, a abstenção foi de 43,06%, os votos brancos chegaram aos 3,68% e os nulos aos 2,85%. O que nos dá uma abstenção bruta (abstenção+brancos+nulos) de apenas 31,32% em Toledo, contra 49,60% em Tomar. É obra!
O conselho municipal de Toledo, equivalente à nossa Assembleia municipal, conta com apenas 25 membros, contra 32 em Tomar. Desses 25 concejales, 9 são do PP, 9 do PSOE e os restantes sete de duas outras formações políticas locais.

Foto Tomar a dianteira 3

O Excelentíssimo Ayuntamiento de Toledo, dá emprego a 626 pessoas. Segundo a própria classificação daquele órgão, esses 626 empregados pertencem a duas categorias: 421 funcionários e 205 trabalhadores. Cabe relembrar que, para menos de metade da população toledana, Tomar emprega à volta de 500 cidadãos, todos funcionários. 
Apesar deste evidente fosso, haverá decerto quem ainda tente justificar o injustificável -um corpo de funcionários municipais nitidamente excedentário, no qual ainda por cima escasseiam os trabalhadores e abundam os chefes sem tarefas efectivas atribuídas. É evidente que os ditos funcionários não são os culpados de tal estado de coisas e têm direito, como qualquer outro cidadão, a ganhar a sua vida por conta de outrem, neste caso na administração local. Este texto não é portanto contra eles, ou contra quem quer que seja. Visa apenas alertar e esclarecer os eleitores.
Agravando singularmente a situação comparativa, os 626 empregados do município de Toledo incluem 119 elementos da polícia municipal e 74 dos bombeiros, num total de 193. Ou seja, dado que Tomar não tem polícia municipal, Toledo dispõe de menos funcionários que Tomar, para mais do dobro da população. Têm razão os publicitários de nuestros hermanos peninsulares. España es diferente. Ó se é!
Por isso a gasolina custa em Espanha menos 30 cêntimos/litro. Fora o resto, que não é nada pouco. Mas como escreveu Voltaire, colocado-o na boca de Pangloss, em Portugal e sobretudo em Tomar, vai tudo bem no melhor dos mundos possíveis
Só falta saber até quando.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Cabotinismo e novo-riquismo na política local




Estes três editais, copiados da edição de hoje, 12/10/2017, d'O MIRANTE, mostram bem quão profunda é a crise que nos assola. Já não só crise económica, mas infelizmente também de valores, de princípios e de respeito pelas instituições.
Ao contrário do que vai acontecer em Almeirim ou Santarém, que sempre é a capital de distrito, nesta nossa desgraçada terra alguém resolveu, num evidente acto de puro cabotinismo, marcar  a posse da Assembleia Municipal, da Câmara Municipal e a eleição do presidente da Assembleia Municipal, para o Cine-teatro paraíso. Porquê? Para quê? Obviamente só para alardear, para se mostrar, para dar espectáculo, pois temos os melhores Paços do Concelho do distrito, com um excelente salão nobre, que existe para isso mesmo -para os actos políticos solenes de todo o concelho.
Alguém, no seu perfeito equilíbrio psíquico e com um mínimo de respeito pelo protocolo, explícito ou implícito, está a ver o próximo governo da nação empossado fora do Palácio de Belém, sede oficial de quem lhe dá posse? Alguém concebe semelhante acto no Pavilhão Atlântico, por exemplo? E no entanto, em Tomar, uma pobre cidadezinha cada vez mais pequena em termos económicos e de população, a política autárquica agora virou espectáculo. Popularucho, ainda por cima.
Os usuais lambe-botas, agora também conhecidos, graças ao Miguel Esteves Cardoso, como culambistas, vão dizer se calhar que em Ferreira do Zêzere a tomada de posse dos novos eleitos também vai ter lugar no Centro cultural. Respondo-lhes antecipadamente: 1 - Porque o salão nobre dos Paços do Concelho de Ferreira não é tão grande como o de Tomar; 2 - Porque o auditório de um centro cultural não é a mesma coisa que um cine-teatro; 3 - Porque, finalmente, a pergunta impõe-se: Desde quando é que Ferreira do Zêzere deve servir de exemplo para Tomar?
Pobre capital templária, que merecia melhor sorte!

Uma presidente excelente em oralidade

São conhecidas as minhas discordâncias políticas com a Sra. D.ª Anabela Freitas. Tenho-as escrito ao correr do tempo e assim demonstrado que a senhora é, na prática, alérgica à crítica. Acontece. Só lamento que confunda divergências políticas com questões pessoais. O que a levou, pelo menos num caso preciso, a enveredar pela falta de cortesia, nada recomendável numa eleita pelo povo. Coisas.
O que antecede não impede, antes valoriza, o que vou dizer. A Sra. D.ª Anabela Freitas também tem qualidades, evidentemente. Uma delas é uma excelente oralidade, a qual ficou bem patente na sua intervenção de despedida do mandato que agora termina. Segundo o excerto de gravação da Rádio Hertz, que pode ouvir aqui, em dois minutos e vinte seis segundos arranjou maneira de discriminar os vereadores de forma subtil, para depois rematar com uma frase de mestre, que lamentavelmente é falsa. Vamos aos factos.
Fazendo as suas despedidas, a senhora presidente dirigiu-se aos "vereadores do PSD" e ao "vereador Bruno Graça", mas logo a seguir referiu o "doutor Pedro Marques". Circunstância que só pode ser significativa, porquanto João Tenreiro também é licenciado em direito e advogado, tal como Pedro Marques. Mas não teve direito ao "doutor". É bem feito! Quem o manda ser do PSD e por isso adversário da senhora do PS, agora com maioria absoluta?
Algo semelhante ocorreu com Bruno Graça, ex-coligado com a senhora presidente. Licenciado e mestre em engenharia, o ex-vereador CDU é portanto engenheiro desde os tempos em que Pedro Marques ainda andava de calções, e a senhora presidente no jardim de infância. Apesar disso, também não teve direito ao protocolar "engenheiro" antes do nome. Decerto porque, na ocasião em que falou, a Sra. D.ª Anabela Freitas já não precisava dos seus préstimos, na qualidade de apêndice utilitário da maioria relativa do PS, que entretanto se transformou em absoluta, logo mudando alguns comportamentos, que se vão tornando sibilinamente mais arrogantes. E a procissão ainda nem saiu da igreja.
Mas o detalhe mais significativo da referida intervenção presidencial parece-me ser uma sentença inspirada, eventualmente obra de algum conselheiro em comunicação, daqueles estipendiados por ajuste directo. Dirigindo-se especificamente ao "doutor" Pedro Marques, (como se ele já  fosse, por exemplo, seu chefe de gabinete), disse a Sra. D.ª Anabela Freitas esta frase espantosa: "Como sabe, só somos criticados por duas coisas, é por tudo e por nada."
Trata-se evidentemente de mero desabafo de alguém alérgico às divergências e à crítica, que são afinal colunas mestras do edifício democrático. Digo mero desabafo, uma vez que a senhora não pode ignorar que o que disse é falso. Totalmente falso.
Julgo saber do que falo, por dois motivos. Desde logo porque em Tomar a informação que temos não critica os autarcas da maioria, devido a um fenómeno que M. Villaverde Cabral denuncia aqui, e que resumidamente é este: Quando a esquerda alcança o poder, a sua primeira e principal preocupação é controlar a informação.
No caso específico de Tomar, ninguém critica  e só é publicado aquilo que convém aos instalados no poder. Isto porque a informação, tanto a nível geral como local, se divide em dois grupos: O primeiro, que integra os órgãos que são a voz livre dos seus jornalistas e/ou comentadores (o Expresso ou o Público, por exemplo), o outro, que engloba os meios que apenas publicam a voz do dono.
Aqui no vale do Nabão  os cidadãos bem informados sabem qual é a situação. Os jornalistas só escrevem ou dizem o que os patrões deixam, porque emprego a quanto obrigas. Os patrões, por sua vez, só deixam avançar o que não ofenda a sensibilidade exacerbada dos detentores do poder, porque caso contrário estes cortam-lhes os víveres e adeus órgão de informação. Não se trata por conseguinte de cobardia ou incompetência, mas apenas de realismo. Tanto dos donos como dos jornalistas e comentadores.
Depois, segundo motivo, sendo a informação local o que tem sido, só eu e mais um ou dois estamos em condições de "cortar a direito", doa a quem doer. E a Sra. D.ª Anabela Freitas sabe bem ser falso afirmar, como o fez, que a criticam "por tudo e por nada". A partir do momento em que se resolvesse ir por aí, julgo que a senhora passaria a dormir menos repousadamente. Os outros comentadores críticos agirão por necessidade e/ou educação. Quanto a mim, nada me limita, a não ser a minha vontade. Mas prefiro ter uma presidente em boa forma física e psíquica, mesmo se nem sempre concordo com o que diz ou faz. Porque é nesse ponto preciso que política e vida privada se mesclam. A crítica política pode provocar ou agravar bastante alguns problemas de saúde.
Criticar é uma coisa. Agredir é outra. Nalguns casos, as maiorias absolutas tendem a tornar os vencedores algo agressivos. E depois fazem constar que Tomar a dianteira é que é demasiado agreste. Feitios, diria o Raúl Solnado. Ou, visto de outro ângulo, convirá talvez citar aquele velho provérbio árabe, segundo o qual "As viagens enriquecem bastante. Mas toma cautela; se mandares o teu burro à Meca, ele vai regressar tão asno como antes da viagem." E andar na política é afinal uma extraordinária viagem ao mundo do labor e da convivência humana.




quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Objectivos opostos - 2

Continuando a criticar a gestão municipal tomarense pela positiva, conforme anunciei aqui, forçoso é referir que uma minoria eleitoral, transformada em maioria de circunstância, aprovou a sábia e oportuna governação da Sra Dª Anabela Freitas. Caso contrário não a teria reeleito, e logo com maioria absoluta. 
Sendo do domínio público que o turismo tem vindo a aumentar em Tomar, apesar de não existirem condições mínimas de acolhimento (estacionamento, sanitários, informação, sinalização, ligação rápida cidade antiga-Convento, limpeza, horários adequados, etc.), é óbvio que os esforços da autarquia vão todos no sentido de desencorajar os turistas. O raciocínio parece ser este: Se os recebermos mal e lhes criarmos dificuldades, irão dizer aos outros que não venham. E quanto menos vierem, menos nos vão incomodar.
A minha recente ida a Toledo confirmou largamente que assim é. Logo à chegada um primeiro indício que não engana, tal como o algodão do anúncio televisivo (clique sobre as fotos, para ampliar):



O nosso querido rio Tejo, que nasce ali próximo (na Serra de Albarracin) e a que chamam Tajo, apresenta-se um bocadinho poluído (reparar na espuma), porém sem algas, ao contrário do que acontece no Nabão. Segundo aquele biólogo referido no Tomar na rede, só pode tratar-se de um atentado ecológico. Não fizeram a prévia selecção das algas a eliminar, pelo que os pobres peixes ficaram sem sombras para descansar, durante as prolongadas canículas tolentinas. Uns ignorantes, estes autarcas de Toledo.
No lugar da Sra. Dª Anabela, ia lá com esse tal biólogo, mostrar-lhes fotografias recentes do Nabão com algas abundantes, e explicar-lhes como se efectua a selecção das mesmas, a cortar rente à superfície. De forma a não destruir o habitat piscícola e manter um aspecto geral o mais típico possível. 
Palavra d'honra!

As iludências aparudem

O título é, como todos já viram, (que Tomar é uma terra de gente que se considera dotada de  bestunto muito acima da média), um trocadilho já muito vulgarizado, para dizer que "as aparências iludem". Pareceu porém o mais adequado para esta peça, na qual o leitor fará o favor de evitar ver qualquer subentendido. O que se quer dizer é exclusivamente o que está escrito.
Circula por aí uma adivinha, particularmente adaptada à presente realidade nabantina. A pergunta é a seguinte: O que fica mais longe, a Lua ou o Algarve? Quem ainda não conhece, é levado a responder que é a Lua. É-lhe então explicado que na verdade é o Algarve que está mais longe. Porque daqui de Tomar podemos ver a Lua, mas não a região algarvia.
Trata-se obviamente de uma habilidade narrativa, que consiste em omitir a posição do observador. Se situado a oito ou dez mil metros de altitude, na vertical de Tomar, por exemplo, qualquer leigo enxergará tão bem a Lua como o Algarve, e constatará que o nosso satélite natural está bem mais longe.
Da mesma forma, em qualquer domínio da actividade humana, mormente na política, para não ser induzido em erro nem navegar em doces ilusões, tudo depende de duas premissas básicas -a posição do observador e a sua capacidade de análise. Nessa conformidade, tudo devidamente ponderado, há vitórias retumbantes que afinal se podem considerar derrotas, alianças que a prazo se podem transformar em grilhetas e programas que na prática se revelarão aquilo que sempre foram: simples papel impresso, sem grande préstimo.
Mesmo no auge da passageira glória, quando as  aparências induzem ilusões, há sempre um indício que não engana. Trata-se daquele princípio enunciado há milénios pelos chineses: Quando o dedo aponta a Lua, os tolos olham para o dedo. Da mesma forma, quando o comentador procura analisar serenamente uma determinada situação, apontando problemas e/ou avançando soluções, os políticos ungidos pelas vitórias eleitorais, em vez de averiguarem se o que é dito merece ou não reflexão e subsequente acção, ficam-se pela crítica ao escriba em causa. É mais fácil e nunca falha. Mas também nunca deu bons resultados a prazo. Basta olhar à nossa volta. Estamos cada vez mais cá para trás em praticamente todas as áreas.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Uma bizarria eleitoral

(Este texto foi escrito na tarde de 4 de Outubro, antes de ter ido lavar a alma)

Face à teimosa arrogância de alguns socialistas mais exaltados após a magra vitória nabantina, Tomar a dianteira resolveu munir-se de paciência e consultar as fontes oficiais. Descobriu assim algumas curiosidades, que passa a partilhar.
São detalhes que deverão levar os responsáveis socialistas locais,  sobretudo Anabela Freitas, a encontrar formas de ultrapassar a frágil posição política em que se encontram, apesar da maioria absoluta. Com efeito, os 40,22% obtidos em Tomar, que garantiram maioria absoluta ao PS, são enganadores e caso único nos distritos de Castelo Branco, Leiria, Lisboa e Portalegre. Trata-se por conseguinte de um autêntico milagre do método de Hondt.
A prova desse milagre reside em dois concelhos. Em Lisboa, o PS de Fernando Medina conseguiu 42,02% dos votos expressos e mesmo assim está em minoria. Têm apenas 8 mandatos, contra 9 de toda a oposição.
Algo semelhante acontece no Crato, distrito de Portalegre. Aí, o PS venceu com 43,02%, mais quase 3% que em Tomar, e tem apenas maioria relativa. Os seus dois eleitos terão de enfrentar os 3 da aposição, uma vez que o executivo conta com 5 lugares.
Estes dois casos evidenciam que na realidade a maioria absoluta do PS em Tomar tem pés de barro mal amassado. Se a oposição soubesse e a população ajudasse, seria até bem possível que houvesse eleições intercalares. Como estamos em Tomar, a tendência geral será, como até aqui, para comer e calar, pois segundo me disse há algum tempo um conhecido autarca, agora reeleito nas listas socialistas, "não vale a pena refilar, porque quanto mais refila, pior é." Que bela democracia a nossa! Só se devem criticar os outros, nunca os da nossa cor. Quando assim não se faz, ouve-se uma outra frase nabantina muito emblemática: "Nem parece ser tomarense." Realmente curioso e sintomático que, uma vez eleitos, os candidatos se considerem os senhores da terra. Quem não pense como eles, não é tomarense. Exactamente como antes do 25 de Abril. 
Conclusão provisória: Embora tendo ganho e obtido maioria absoluta, os eleitos e outros socialistas locais, o melhor que têm a fazer é tornarem-se mais humildes, mais tolerantes, ouvirem os outros e irem procurando políticas mais adequadas ao combate à crise, que assola Tomar há mais de vinte anos. Caso assim não aconteça, vamos todos sofrer as consequências. E o futuro de alguns eleitos pode vir a revelar-se bem menos risonho do que muitos pensam. Citando Lincoln, não é possível enganar toda a gente durante muito tempo.


Objectivos opostos - 1

Quererão os leitores saber para onde fui afinal tentar lavar a alma. Simples: entre outras, fui revisitar sobretudo duas localidades cujas ruas não calcorreava há mais de 30 anos. Refiro-me a Toledo e S. Lourenço do Escorial. Além destas, dado que ia num grupo de 30 e tantos tomarenses, andei também por Torrejón de Ardoz, Madrid, Ávila e Salamanca.
Ciente da minha nova directriz, segundo a qual em Tomar vai tudo bem, no melhor dos mundos possíveis, como diria o Pangloss, do Cândido de Voltaire, e tendo também em conta que vamos no rumo certo, visto que a candidatura com este lema venceu com maioria absoluta, fui observando e anotando que todos os sinais opostos nas localidades visitadas apontam inevitavelmente para objectivos diferentes dos anunciados em Tomar..
Começo por Torrejón de Ardoz, onde era o nosso hotel. Trata-se de uma localidade a cerca de 35 quilómetros de Madrid e a 3 de Alcalá de Henares, com cerca de 130 mil habitantes, dos quais 25 mil são estrangeiros. As duas principais curiosidades são a base militar americana e o Parque Europa.
Não visitámos a base, mas fomos ao dito parque, que é afinal um belo e vasto jardim dotado de muitos equipamentos para crianças. Tem também reproduções à escala de alguns dos mais famosos monumentos europeus:

Porta de Brandenburgo

 Ponte de Londres

 Torre Eiffel - Paris


Naturalmente, um parque assim inclui várias e vastas instalações sanitárias, distribuidores automáticos de bebidas, chocolates, batatas fritas, etc, serviços de informação e amplos espaços para merendar:



A entrada é gratuita e sem limite de tempo. Há apenas uma formalidade: o parque de estacionamento fica a duzentos metros, tem capacidade para mais de 50 autocarros de turismo e cada um paga 15 euros:


Conclusão lógica: Por estas bandas procuram receber bem os visitantes, sobretudo as crianças e adolescentes, mais igualmente os residentes. O parque até  dispõe, por exemplo, de dois recintos para treino de cães. Um para animais grandes, outro para os mais pequenos.
Presumo portanto que os autarcas que administram a zona também devem estar convencidos de que vão no rumo certo. O nosso problema é que eles dispõem dos equipamentos indispensáveis e Tomar não, apesar das magníficas prestações dos sucessivos autarcas nabantinos. De facto, parece-me haver neste caso objectivos opostos. Um fosso entre a conversa e a realidade.
Mas devo estar a ver mal. 

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Alma lavada vida descansada

Estes últimos quatro dias, que aproveitei para tentar lavar a alma, pela reflexão e autocrítica, permitiram-me ver quão errado andava, ao criticar frontalmente quase tudo e quase todos. Praticamente sem resultados práticos, salvo uns ódios de estimação da parte de alguns conterrâneos com formação humana obviamente de excelência.
Nesta conformidade, doravante vou tentar ver a coisas tomarenses sempre pelo lado positivo. Procurar sistematicamente fazer crítica construtiva, uma coisa que os tomarenses tanto apreciamos. Por outras palavras, usar por sistema uma narrativa tal que tudo o que aconteça em Tomar seja sempre benéfico. Fica prometido e aqui vai o primeiro exemplo dessa  nova prosa. Um pouco ao estilo da geringonça.
A admirável, retumbante e espectacular vitória de Anabela Freitas foi merecidíssima e justíssimo corolário de um mandato todo ele pautado pelo rigor, pela busca do progresso para todos e pela evidente melhoria das condições de vida dos tomarenses. Além disso, a maneira como foi conseguida essa vitória extraordinária evidencia o indesmentível talento político da nossa querida governante. Ao chamar a si, em regime de coligação encapotada, os discípulos do apóstolo Pedro Marques, um pouco perdidos após doze anos de evangelização sem resultados que se vejam, mostrou-lhes a eles e aos tomarenses em geral que mesmo assim tudo vale a pena se a alma não é pequena, como diria aquela outra pessoa.
É claro que gente invejosa, mal formada, sempre à procura de tachos e de outras vantagens, (como eu, por exemplo), vai continuar a dizer que as coisas vão mal em Tomar. Apontarão o êxodo da população, a falta de limpeza do rio, a pobreza franciscana dos equipamentos urbanos, os pindéricos espaços verdes, o saneamento... Má lingua. Só má língua.
Na verdade, trata-se de uma política municipal, cuidadosamente planeada e executada, tendo em vista ir melhorando o conforto dos tomarenses. Assim, o êxodo da população é uma boa maneira de possibilitar o aumento das benesses governamentais e/ou municipais, visto que quanto menos formos, mais recebe cada um, tendo em conta que o bolo governamental não cresce assim como a gente gostaria. Quanto aos outros aspectos, trata-se obviamente de afastar quanto mais turistas melhor. Sobretudo os de pé descalço, que fazem muito barulho, sujam tudo e não rendem.
Exagero? Olhe que não! Se mesmo com a cidade abandalhada, em parte graças ao empenho da autarquia, a enxurrada turística é cada vez mais incomodativa, já pensou o que seria, caso estivesse tudo como deve ser cá na terra, nomeadamente a sinalização, o rio limpo, os sanitários em quantidade e qualidade, o estacionamento, etc. etc.?
Concluindo, por agora: Parabéns à senhora Dª Anabela Freitas e à sua distintíssima equipa, doravante enriquecida (e de que maneira!) com as novas aquisições, fruto da sua sábia estratégia política. Tomar a dianteira cá estará para criticar como sempre, agora porém pela positiva, todas as iniciativas em prol dos tomarenses, que certamente não tardarão.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Euforia descabida

Na sequência da magra vitória socialista, que com os votos favoráveis de apenas 22,89% dos eleitores inscritos, consegue uma maioria absoluta, vai por aí uma exagerada euforia nas hostes da mãozinha. Até chega a parecer a  claque de um dos grandes clubes. É pena. Porque demonstra duas coisas. Antes de mais, que os eufóricos desconhecem a situação real da cidade e do concelho, a esvair-se em termos populacionais. Depois, que os eleitos nem sequer perderam tempo a olhar e comparar os resultados eleitorais. Caso o tivessem feito, talvez se mostrassem mais modestos no triunfo.
Para tirar dúvidas, nada melhor que comparar:


Salta aos olhos uma evidência: a vitória socialista em Tomar foi de longe a mais modesta da zona. Apenas 40,22%, contra 45.43% no Entroncamento,  51,73% em Abrantes e 52, 27% em Torres Novas. "Uma vitória por poucochinho" conforme disse o camarada António Costa, como pretexto para apear António José Seguro.
Mesmo com o arranjinho Pedro Marques, o PS tomarense não tem de que orgulhar-se. A maioria absoluta conseguida resulta mais do contexto que do trabalho efectuado. E quando assim é, convém deitar contas à vida, que 2021 é já ali adiante.
Os menos habilitados cabeçalmente vão eventualmente alegar que, tal como no futebol, na política tanto vale uma vitória folgada, por 4 ou 5 a zero, como um triunfo modesto, com um só golo. É verdade. Há porém uma diferença fundamental. No futebol, por detrás dos golos há só um ou dois, raramente três jogadores. Na política, por detrás de cada vitória ou derrota, há milhares de cidadãos pagadores de impostos, que, aí sim, tal como os sócios dos clubes, têm todo o direito de refilar, pedindo contas das asneiras cometidas e dos dinheiros entretanto gastos.
Conviria que Anabela Freitas e os seus seguidores nunca esquecessem o que antecede. Infelizmente, assim a priori não me parece ser o caso. Pelo contrário.

Tomar a dianteira 3 regressará ao convívio dos leitores na próxima segunda-feira, dia 9. Até lá!

Optimismo em demasia

 Analisando a composição da Assembleia municipal, a Radio Hertz diz que:
 "Olhando para os números, constata-se, desde já, que o PS não tem a maioria ainda que se acredite que a gestão socialista não terá problemas em seguir o seu programa já que a “esquerda” está em clara vantagem no órgão, sem esquecer que Américo Pereira foi apoiado pelos socialistas."
Não será demasiado optimismo? No meu tosco entendimento, produto da falta de experiência política, porque nasci a semana passada, "a gestão socialista não terá problemas em seguir o seu programa", desde que antes se dê ao trabalho de elaborar e submeter à discussão esse alegado programa, que por enquanto não me consta que exista. Uma série de boas intenções nunca constituíram um sólido projecto de trabalho.
Não há uma visão de conjunto. Falta calendarização, articulação e financiamento. Há apenas projectos sofríveis para obras esparsas a efectuar quando calhar, algumas das quais ainda nem começaram e já são alvo de forte contestação. É o caso nomeadamente do conjunto habitacional para ciganos ao lado da GNR e da bizarra requalifica Apenas medíocreção da Várzea Grande, que vai custar bastante dinheiro sem que se vislumbrem os benefícios práticos que daí vão resultar em termos de futuro a médio/longo prazo, no que concerne a estacionamento.
Se durante o mandato que vai começar o PS não mudar nem for forçado a mudar de agulha e de métodos de trabalho, haja quem nos ajude, que o futuro parece-me bem negro. Bem gostaria de estar equivocado.
Que fique claro um detalhe. Nunca quis nem quero o mal do PS, dos seus eleitos ou de quem quer que seja. Não sou sádico nem ando em busca de tachos. Apenas procuro agir no sentido de levar os eleitos a melhorarem muito consideravelmente a sua actuação, a qual como todos sabemos não tem sido boa, nem mesmo suficiente em muitos aspectos. Se tivesse sido, não estaríamos decerto a perder população a olhos vistos.

Bruno Graça a CDU e o goto dos tomarenses

O amigo FERROMA, que também assina TEMPLÁRIO é um honrado político tomarense a residir alhures. Sabe muito destas coisas, pois até foi um dos fundadores do MRPP, nos idos de 60, e teve a bondade de enviar um comentário para Tomar a dianteira, que pode ser lido aqui, o qual termina com estas considerações: "Lamento sinceramente a não eleição do eng. Bruno Graça. É injusto.Um paradoxo. Decididamente não cai no goto dos tomarenses -vá-se lá saber porquê."
Antes de mais, algo do foro íntimo: Conforta porque faz bem à alma, constatar que um outrora acérrimo adversário político de Bruno Graça, que era então da UDP - OCMLP, lamenta agora uma derrota da formação do ex-inimigo político. É a prova de que o tempo sara todas as feridas. E ainda bem.
Indo à substância do escrito, tem razão o comentador. Também Tomar a dianteira, que em tempo oportuno aventou essa hipótese, lamenta o malogro eleitoral da CDU em Tomar, que igualmente considera injusto e paradoxal. Não por mera simpatia pessoal ou sequer política. Tão só por constatar que o vereador Bruno Graça trabalhou muito e bem, sem quaisquer proventos pessoais, em prol da cidade e do concelho. É sobretudo a ele que se deve a resolução de alguns dos magnos problemas do mandato que agora vai terminar. Mercado, espaços verdes, ParqT, ADSE, chefe de gabinete... Não é pouca coisa. Porquê então o evidente desastre eleitoral?

Resultado de imagem para fotos de bruno graça tomar

No entender de Tomar a dianteira, por três motivos principais, a saber: A - O feitio difícil do vereador, B -  A política da CDU C - A demagogia tomarense. Vamos ao detalhe.
A - Cada qual tem o seu feitio, a sua idiossincrasia, as suas "pancadas". Calmo, educado e cordato, o vereador da CDU é contudo pouco empático, frio, nada expansivo, hirto, por vezes algo ríspido no seu relacionamento, sobretudo com dependentes hierárquicos. Em parte, talvez herança da docência e do serviço militar.
B - Na óptica de Tomar a  dianteira, ao integrar a geringonça, o PCP não terá pesado devidamente todas as vantagens e inconvenientes. É extremamente raro, mas aconteceu. Considerado desde sempre pelos seus eleitores como um partido honrado, de palavra, de luta e de protesto, ao aceitar apoiar um governo PS, mesmo sem nele participar, para muitos sujou a sua reputação. Afrouxou a luta, esqueceu o passado e deixou de ser naturalmente um partido de protesto, conforme tem vindo a ser demonstrado. Para muitos eleitores isso é imperdoável. E custou milhares de votos, bem como 10 câmaras a menos.
C - Em Tomar a coisa foi ainda mais complexa, devido a um terceiro factor, exclusivamente local. Desde há muito que, nos meios bem informados, se conhece a situação real na autarquia. Quem lá manda na prática são algumas chefias e regra geral os funcionários não são propriamente escravos do trabalho. Abundam os feudos. Ao tentar alterar esta relação de forças, que ao longo de vários mandatos tem sido alimentada por atitudes demasiado demagógicas dos executivos, cujos membros têm primado nesta área pela pusilanimidade, Bruno Graça meteu a mão num vespeiro. Pretendeu extinguir, ou pelo menos limitar, a usual política das palmadinhas nas costas, dos subsídios, festas, papas e bolos para enganar os tolos. Já os latinos diziam que audaces fortuna juvat -a sorte ajuda os audazes. Neste caso não ajudou. Problema de conjuntura.
É pena. Porque agora somos nós, contribuintes tomarenses, que vamos ter de pagar as festas, os subsídios, as papas e os bolos. Mesmo não sendo tolos, O Bruno não perdeu grande coisa. Só terá de arranjar outra sarna para se coçar. E terá deixado pelo menos uma frase lapidar para a história política local: "Não é com festas que se resolvem os problemas da cidade e do concelho." 

terça-feira, 3 de outubro de 2017

O drama tomarense e os pobres de espírito

Os pobres mais infelizes e difíceis são os pobres de espírito. Porque os outros vão pedindo e obtendo o mínimo vital. Já os primeiros nada pedem, porque se ignoram enquanto pobres. Julgam ter toda  a razão do mundo. A este problema junta-se um outro, igualmente importante, na área da política: ninguém é de facto responsável individual de uma decisão colectiva. Churchill disse-o, numa tirada que se tornou célebre - A democracia é o pior dos regimes, à excepção de todos os restantes. Noutros termos, ao votar, o eleitor ignora completamente o resultado final global do seu voto. O que faz da votação democrática um sistema imperfeito, porém até agora sem substituto melhor.
Regra geral, após uma consulta eleitoral, os eleitores vencidos raramente ou nunca admitem ter votado nesse candidato, nessa lista ou nessa opção derrotada. Inversamente, todos ou quase todos os votantes alardeiam a sua satisfação quando a sua escolha ganhou. Como aqueles milhares de adeptos dos clubes desportivos, que comemoram ruidosamente vitórias conseguidas nos relvados por apenas onze contra onze. Este comentário de um corajoso anónimo, que também pode ser uma corajosa, e pode ser confirmado aqui, é bem elucidativo e um claro sintoma da crónica maleita tomarense:


Trata-se objectivamente do comentário típico da pobreza de espírito, que se ignora e se julga um farol, susceptível de iluminar as nabantinas almas perdidas nas profundezas do erro. Vejamos, seguindo a ordem cronológica. "Muita gente vai ter que meter a viola no saco" porquê? A maioria absoluta de Anabela Freitas, filha do arranjinho com Pedro Marques, do desaparecimento dos IpT e da relativa inépcia do PSD, já resolveu algum problema? Que eu saiba, só um: a sucessão do actual mandato. Quanto ao resto: O rio Nabão já não tem algas? Há sanitários públicos em quantidade e qualidade? O Mouchão já voltou ao que  foi antes do 25 de Abril? Os autocarros com turistas já podem circular nos dois sentidos na estrada do Convento? Desapareceu o intenso e persistente cheiro a merda na zona da Avenida Nun'Álvares? Está resolvido o problema dos "museus da Levada"? Já há estacionamento suficiente junto ao Castelo e Convento de Cristo? Tomar já voltou a ter um parque de campismo dos melhores do país? Todo o concelho tem já uma moderna e eficaz rede de saneamento? Na cidade antiga, as redes de água e de esgotos já foram requalificadas na totalidade? O custo final da água dos SMAS já deixou de ser o mais elevado da zona e dos mais caros do país? O problema cigano já foi solucionado? A excessiva burocracia camarária já foi suprimida? Deixou de haver evidente arrogância da parte de numerosos funcionários superiores e de alguns eleitos? O êxodo da população já acabou, ou pelo menos afrouxou? A lista é tão longa que mais vale ficar por aqui. E face a isto tudo, uma alma anónima acha que alguns vão ter de meter a viola no saco? Ignora, na sua evidente pobreza de espírito, que tal constitui afinal, um apelo ao silêncio, mais próprio de ditaduras e de cemitérios?
Confirmando a sua indigência intelectual, a mesma alma caridosa refere "quem disse mal e denegriu", aconselhando a esses a paciência e o choro. Tomar a dianteira não consegue vislumbrar a quem se possa dirigir tal alvitre. Do que tem lido, concluiu que ninguém disse mal ou denegriu. Limitaram-se a tentar alertar, mostrando as coisas como elas são. Regra geral muito desagradáveis, lá isso é verdade. Mas quem tem calos, não se deve meter em apertos. Ninguém é obrigado a candidatar-se. Não há portanto razão para chorar, antes para continuar atento e actuante. Contra a arrogância, o convencimento, a auto-suficiência e a evidente falta de projectos. Porque, também na política, as vitórias imerecidas criam ilusões, que a todos acabam por prejudicar. Como lá mais para diante se verá. É por assim dizer inevitável.

No melhor pano cai a nódoa

"Em Amsterdão as mulheres reclamam sentinas públicas"


As holandesas organizaram uma jornada de protesto no passado sábado dia 23 de Setembro, para denunciar a falta de instalações sanitárias para mulheres. Uma resposta à multa aplicada a uma delas, por ter urinado em plena via pública.
Eram alguns milhares no Facebook, mas muito menos na rua, para reclamar em Amsterdão (Holanda) o direito de urinar com decência e de dispôr enfim de urinóis públicos femininos. Mesmo poucas, as "Dolle Minas", as rebeldes holandesas inspiradas pelo combate de Wilhelmina Bruker, îcone da luta feminina no século XIX, resolveram chamar a atenção dos seus compatriotas.
Na sexta-feira, 22 de Setembro, sob os olhares interrogadores dos residentes e dos turistas, presentes na Leidseplein, em pleno centro da cidade, algumas jovens sentadas em penicos, parcialmente tapadas por cortinas, nas quais se lia "ocupado",  protestavam contra a recente sentença de um magistrado da cidade, que achou justificada a multa aplicada em 2015 a uma jovem que, por falta de instalações sanitárias, foi levada a aliviar-se em plena via pública.

Em 35 sanitários públicos, só três acessíveis a mulheres

Retomando a tradição do movimento feminista, que no início dos anos 70 reclamava creches, aborto livre e o direito de as mulheres se matricularem em qualquer universidade, as Dolle Minas resolveram voltar à luta. O protesto dos penicos, em Amsterdão, foi completado com uma mobilização nacional no dia seguinte, e as fotos de mulheres de cócoras, fazendo as suas necessidades, enviadas à ministra da justiça.



As feministas consideram que a falta de sentinas públicas numa cidade moderna e os comentários do juiz, segundo os quais "em caso de necessidade muito urgente, uma mulher pode utilizar os urinóis reservados aos homens", são indecentes. Bebendo água ou cerveja, com balões amarelos legendados "A necessidade é mais forte que a lei" ou "A última gota", as "Minas" explicavam a quem passava que Amsterdão já contou com 200 urinóis nos anos 70, mas agora está reduzida a apenas 35, entre os quais só três acessíveis a mulheres.
A capital dos Países Baixos teve no entanto, durante muito tempo, uma comissão dos urinóis públicos. Criada em 1928, com representantes unicamente masculinos, teve bastante tempo para meditar sobre os grandes eixos da política a seguir, uma vez que só foi extinta em 1985. Apesar de tal longevidade, nunca optou entre as vantagens e os inconvenientes eventuais dos sanitários femininos. Em contrapartida, considerou que a redução do número de urinóis masculinos criaria um problema: são um local bastante procurado para rápidos encontros nocturnos de homossexuais.

O nível de civilização de uma sociedade vê-se nas suas instalações sanitárias

A solução para acabar com a discriminação das mulheres nos sanitários públicos podia ter vindo de França, com as Sanisettes para os dois sexos, descobertas já tarde pelos especialistas municipais. Aconteceu contudo que o município recusou a sua instalação, considerada demasiado cara. Entretanto, colocados perante as recentes reivindicações, os autarcas esclarecem que, salvo erro, nunca ninguém contactou o serviço de equipamento urbano reclamando instalações sanitárias para mulheres.
Explicação ridícula, considera Dunya Verwey, de 70 anos, que explica no jornal Het Parool que "o nível de civilização de uma sociedade vê-se nas suas instalações sanitárias", acrescentando que "nessa matéria os Países Baixos ficaram muito lá para trás".

Jean-Pierre Stroobants, Le Monde on line, 29/09/2017
Tradução e adaptação de António Rebelo, UParisVIII

Nota de Rodapé
Nesta questão de sentinas públicas, estamos muito pior que em Amsterdão. Mas em contrapartida somos muito mais liberais. Não consta que algum habitante do Flecheiro tenha alguma vez sido multado por se aliviar onde calha. E no entanto...



segunda-feira, 2 de outubro de 2017

No rumo certo?

Notas sobre os resultados eleitorais


1 - Apesar de ser um blogue sobre questões locais, Tomar a dianteira 3 não consegue deixar de referir, antes de mais, o resultado eleitoral de Oeiras, na periferia de Lisboa. Que no concelho com mais elevada percentagem de eleitores com estudos superiores em todo o país, um candidato ex-presidiário, porque condenado por delitos cometidos no exercício das funções de presidente da câmara, consiga voltar a ser eleito para esse mesmo lugar, diz bem do povo que somos. Escarnecemos do Brasil ou da élite angolana, mas afinal estamos na  mesma. 

2 - Fui o único a fazer e publicar previsões eleitorais, que podem ser relidas aqui. Errei redondamente quanto aos resultados finais, mas também acertei nalguns tópicos: A - Conforme escrevi, a CDU não tinha qualquer base sólida para aspirar a dois eleitos. O problema era outro -o de conseguir manter o vereador Bruno Graça, afinal vítima da geringonça local. Quem com ferros mata, com ferros morre. O vereador da CDU contribuiu para afastar o chefe de gabinete e um vereador, acabando por ser agora também afastado. B - Tal como aqui foi referido, o PSD só ganhava com uma abstenção da ordem dos 40%. Com respectivamente 43,07% nas freguesias rurais e 45,17% na urbana, José Delgado não teve hipóteses. A abstenção média foi de 44,12%. 4,12% x 34.814 eleitores inscritos = 1.435 eleitores. O PS ganhou com uma vantagem de 1.155 votos.  

3 - Não tendo surgido qualquer projecto digno desse nome para a cidade e o concelho, susceptível de mobilizar os eleitores, venceu Anabela Freitas. E venceu bem. Em todo o caso melhor do que em 2013. Dou-lhe os meus parabéns. Todavia, decerto convencida que governou bem, pelo que não há necessidade de mudar, dificilmente vai conseguir realizar o indispensável -estancar a hemorragia populacional e reconciliar os tomarenses. E sem isso...

4 - Uma vergonha, é como deve qualificar-se o ocorrido nas assembleias de voto da freguesia urbana.
Houve necessidade de recontagem e não deixaram entrar a comunicação social, que assim colheu o que tem andado a semear, ao colocar-se sistematicamente às ordens do poder. Três horas e meia após o encerramento das urnas, ainda não eram conhecidos publicamente os resultados. Pobre terra! Pobre gente!

5 - E agora? E agora, salvo pouco provável mudança de rota, Tomar vai continuar nesta apagada e vil tristeza, com os instalados à mesa do orçamento todos contentes, porque a mama vai acentuar-se durante os próximos tempos, e o êxodo dos mais capazes vai aumentar de mês para mês. Bem gostaria de estar enganado.

6 - Para alguma coisa terá servido tão estranho resultado eleitoral, (em que 22,89% dos votos possíveis garantem maioria absoluta), além de possibilitar a continuidade do PS no frágil e pouco operante poder tomarense. Mostrou aos candidatos das pequenas formações que não basta ambição, boa vontade e fé em Deus. Sem gente capaz em termos práticos, nem projectos mobilizadores e adequados, é tempo perdido tentar alcançar lugares na política activa local. Lincoln disse-o há dois séculos: Pode-se enganar alguém durante toda a vida; pode-se também enganar toda a gente durante algum tempo; é porém impossível enganar toda a gente durante muito tempo. Como não tardará a ver-se...

Adenda, às 10H45 de 02/10/17

Para a Assembleia municipal José Pereira obteve menos 338 votos que Anabela Freitas para o executivo. Em sentido contrário, Paulo Macedo, da CDU, averbou mais 92 votos que Bruno Graça.
Eleitores ingratos, é o que é.

domingo, 1 de outubro de 2017

LE MONDE - Editorial

"Orçamento de Estado: Uma aposta de alto risco"


"Estará o orçamento inaugural de um mandato presidencial amaldiçoado? Em 1995, Jacques Chirac decretou uma rigorosa austeridade, nos antípodas das suas promessas de campanha. Em 2007, Nicolas Sarkozy instaurou a favor dos mais afortunados um escudo fiscal, que depois arrastou como uma grilheta até ao final do mandato. Em 2012, o brutal aumento de impostos decidido por François Hollande, feriu os franceses e arruinou a sua confiança no governo e no presidente.
Sabedor  de tudo isto e tomando os antecessores como contra-modelos, o presidente da República teve um cuidado extremo na preparação da sua primeira lei de finanças, procurando respeitar o mais possível os compromissos do candidato Macron: favorecer o risco em vez das rendas, o enriquecimento pelo talento e a inovação, em detrimento do investimento imobiliário. Beneficia, por outro lado, de uma conjuntura encorajadora, uma vez que o crescimento económico (+1,7 previsto de forma prudente para 2018) regressa após dez anos de crise.
Emmanuel Macron prometeu reduzir a despesa pública e, de facto, a anunciada redução das despesas do Estado é significativa. Embora inferior aos vinte mil milhões de euros encarados no início do verão, o plano de economias orçamentais é apesar de tudo de 15 mil milhões de euros, dos quais 7 mil milhões no orçamento do Estado, 5 mil milhões na Segurança Social e 3 mil milhões nas comunidades territoriais (autarquias e regiões). Integrado numa programação para cinco anos, este esforço de rigor deverá ser reforçado após 2018.
O Chefe de Estado prometeu igualmente uma redução dos impostos, tanto para tentar dissipar a insatisfação crescente dos franceses, como para encorajar as empresas e actividade económica. De facto, procura cumprir. Haverá um total de 7 mil milhões de redução de impostos, desencadeando assim a diminuição dos descontos obrigatórios durante o seu mandato de cinco anos. Com um défice público que fica aquém dos 3% (2,16% previstos em 2018), previsões de crescimento razoável e uma gestão mais rigorosa dos dinheiros públicos, eis portanto um orçamento capaz de satisfazer tanto o Tribunal de contas como a Comissão de Bruxelas.
Mas para os franceses, é outra coisa. Porque duas medidas altamente simbólicas podem muito bem parasitar o conjunto do orçamento: por um lado o ISF (Imposto sobre a fortuna), tranformado numa taxa sobre a fortuna imobiliária, à qual não estarão sujeitas as aplicações financeiras; por outro lado, a criação de uma taxa única de 30% sobre os rendimentos do capital (que actualmente podem ser taxados até 58%).
O governo bem pode alegar que tenta assim encorajar o investimento. Pode também realçar todas as medidas destinadas a melhorar o poder de compra dos franceses, designadamente dos mais modestos, (exoneração progressiva do IMI para 80% dos contribuintes, redução dos descontos sobre os salários, aumento do prémio de actividade e dos rendimentos mínimos sociais, etc.).
Mesmo assim, a reforma do ISF e o imposto único sobre os capitais fixado em 30%, representam um redução fiscal substancial para os contribuintes mais ricos, em particular para o famoso 1% dos mais afortunados, [os ricos entre os ricos], cujas poupanças essenciais são constituídas por investimentos financeiros. Para convencer os franceses que não se trata de um "presente" para os mais ricos, vai ser necessário que os beneficiários invistam efectivamente nas empresas, contribuindo assim para o relançamento da máquina económica. Não passa de um eufemismo constatar que estamos perante uma aposta de alto risco."

Le Monde, 29/09/2017, última página
Tradução e adaptação de António Rebelo -UParisVIII

Entretanto em Portugal, particularmente em Tomar, quem governa, (ou julga que governa),  procura sobretudo aumentar a despesa pública e os impostos, usando as ajudas à cultura e aos mais desfavorecidos como argumentos. Não se dão conta que o dinheiro dos orçamentos tem de vir de qualquer lado e de que, quando deixar de haver quem pague impostos e taxas, por não ter rendimentos para isso, adeus ajudas, adeus subsídios, adeus mordomias, adeus vencimentos, adeus empregos para toda  a vida, adeus progressões automáticas. Com o êxodo dos mais habilitados a acentuar-se em Tomar, (não é decerto por mero acaso que o politécnico tem cada vez menos procura), já faltou mais para o colapso final. Infelizmente, que as desgraças não são boas para ninguém.